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Geração dos cegos órfãos

Nas últimas semanas, mais do que de costume, venho notando que esta geração está crescendo cega da cabeça. Vivemos numa época globalizada onde tudo está próximo, os grupos sociais se definem facilmente e a tal diversidade, nem é tão diversa assim. Vejo muito nas rodas de conversas, principalmente entre os adolescentes, uma padronização horrenda. Tem dias que gostaria que todos fossemos cegos dos olhos, talvez o mundo seria melhor.

Imagine, se o nosso convívio social fosse feito somente através da audição, escolher relacionar-se com alguém, tenho absoluta certeza, seria infinitamente melhor. Ouvir somente a voz da pessoa, prestar atenção, literalmente, comprar uma idéia. Se, por ventura, isto ocorresse, por pelo menos um mês na vida de todos e depois voltássemos a enxergar, nada em nossa volta seria igual. Estaríamos rodeados de estranhos que nos tocaram de tal forma que, incrivelmente, o significado de valer a pena faria sentido. Entenderíamos que uma palavra é o maior conforto do ser. Às vezes, dá-me a sensação de que há muita gente olhando demais e ouvindo de menos.
Os pais da geração anterior à minha perderam seus filhos para a rua e para o mundo. Perderam os filhos para as drogas. Droga da beleza que são cobrado. Ficaram cego dos ouvidos, já dizia minha vó. Perdemos-nos. Estamos sozinhos assistindo ao mundo sozinho.

Foto 0114

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CRÔNICA

Este texto deveria dizer mais do que ele realmente diz

Nunca fui bom em usar palavras, principalmente quando preciso tirá-las da cabeça e fazer força pra sairem da garganta que aperta quando menos deveria. Já criei mil teorias para entender a mim mesmo quanto a isto, por vezes, creio que a culpa são das estrelas que apontavam a constelação de cancêr e no horizonte a leste, a constelação de aquário no exato momento que apontei neste Éden infernal, onde anjos e arcanjos não ousam pousar. As coisas fáceis nunca foram as que eu mais gostei. Aceitei esta dádiva e aqui estou para jogar o jogo. Me dá a camisa 5 que eu começo a pensar o jogo. Levanto a cabeça pra começa a jogada, desarmei o adversário e já procuro o 10 pra ir pra cima com a bola no chão. CALMA! Grita o cara que assiste o jogo. Não precisa correr. Faz o giro, espera o adversário recuar, se for preciso, volto o jogo na zaga central e já me apresento pra começar sem pressa. O meio-campo é meu, sou eu quem dá o bote. Eu que carrego o piano, nessa faixa do campo, eu jogo sozinho.
Sempre preferi à solidão do que a companhia. Não é questão de estar sozinho, mas o querer de uma única companhia. Adoro um aconchego de casa e um bom afago. Um cafuné antes de dormir sempre caiu bem. Expectativas é o  mais complicado de controlar, sempre se espera mais do outro, mesmo sendo tolerante, é inevitável o afastamento e isolamento. Antropologicamente falando, ainda boto fé na palavra alheia, mas nem sempre a palavra condiz com atitudes. Disso eu não entendo. Me esforço, mas não entendo.
NÃO! Vem o grito de fora. Fodeu! Contra-ataque tá sendo armado e me pegaram com as calças na mão. Bola na costas do lateral. Não posso sair da minha parte do campo, senão o meio fica aberto e a segunda bola vai ser dos caras, de frente pro gol. Lá vai o zagueiro tentar cobrir o lateral. Ficou pra trás. Olha o cruzamento… subi. Coloquei pra escanteio. Paguei geral. Quebraram o esquema e casa quase caiu.
Às poucas vezes que saio do casulo, me exponho demais. Fico em silêncio até explodir. O silêncio até que ia bem. Vou me manter calado, assim parece que estou tranquilo. Eles vão se perguntar: “De onde vem a calma daquele cara?”. Melhor continuar sendo honesto a mim mesmo. Essas multidões não me causam conforto. Com licença, acho que vou para casa.

Cada um tem seu tempo e depois entra em silêncio

O silêncio até que ia bem. Tá aí, meu mundo.

Leonardo Boff

Há um livro curioso do Primeiro Testamento, o Eclesiastes (em hebraico Coélet), que não menciona a eleição do povo de Deus, nem a aliança divina, sequer a relação pessoal com Deus. Representa a fé judaica inculturada na visão grega da vida. Possui um olhar agudo sobre a realidade assim como se apresenta e nutre a reverência para com todos os seres. Há uma passagem assáz conhecida que fala do tempo: “há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz” e por aí vai (c. 3,2-8).

Há muitas formas de tempo. Precisamos nos libertar de um tipo de tempo dominante, aquele dos relógios. Todos somos reféns deste tipo de tempo mecânico. Conhecem-se relógios – o primeiro foi o relógio do sol – já há…

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